A gravação instrui, pacientemente:

<bip>

Inspire fundo.
Segure o ar.

Enquanto o gosto metálico do contraste de iodo se espalha pela minha garganta como um cobertor pesado que me esquenta de dentro pra fora, me vejo engasgando num soluço de choro inesperado. Mas pudera, da última vez que me deitei para fazer uma tomografia, eu estava à beira da morte. 

Sim, isso soa meio dramático, mas era literalmente o caso. Ao menos, foi o que disseram os médicos plantonistas da UTI aos meus acompanhantes quando finalmente me estabilizaram, uns três ou quatro dias depois de eu ser internada. Meu coração bombeava baixinho e lento, afogado pelo líquido que esmagava suas paredes poderosas. Os pulmões eram um lago lodoso, e seus alvéolos murchos mal conseguiam transferir o oxigênio para o sangue. A jugular interditada por uma trombose, que eu tenho certeza que senti no dia em que se instalou, no mês anterior a tudo isso. Dizem que os residentes não entenderam exatamente como, depois de uma noite de batimentos particularmente desritmados e fracos na UTI, meu coração acordou batendo violentamente, ansioso pela vida longe daqueles bipes insuportáveis. Pouco mais de um ano depois, eu iria lamentar que ele não tivesse parado ali e me poupado da dor que iríamos experimentar. ‘A sua irmã morreu. Ela tirou a própria vida!’. Eu perdi as contas de quantas vezes desejei que ele tivesse desistido e nos poupado desta ligação. 

Na primeira tomografia, eu entrei na rosquinha gigante para o médico do Pronto Socorro confirmar um derrame pleural extenso, encontrado por acaso num ultrassom encomendado por um gastroloenterologista cético com minhas queixas de enjoo. Assim, descobriram uma massaroca do tamanho de um pires espremendo meus pulmões e coração na gaiola das costelas. A “massa” ficou sendo assim denominada até longuínquas duas semanas se passarem, enquanto eu aguardava, presa no hospital, o resultado da biópsia. O objeto não identificado foi rebatizada como um tumor no mediastino, sem sobrenome, e portanto carregado de possibilidades terríveis, até que num dia nublado e amaldiçoado de carnaval, um hematologista oncológico marchou pelo meu quarto até a poltrona onde eu tomava soro, e veio me contar que meu pires se tratava de um linfoma não Hodgkin primário de grandes células B do mediastino (abreviado pela simpática sigla LBPM). O ‘doutor’ não conseguiu disfarçar a impaciência quando respondeu que sim, é claro que meu cabelo iria cair com a quimioterapia, que começaria nos próximos dias. É óbvio que o tratamento iria até pelo menos o Natal, no mínimo. Como eu não sabia? Com um sorriso daqueles que não chegam aos olhos, ele anunciou que meu linfoma, apesar de ser muitíssimo raro, era altamente tratável. Que eu tinha mais de 60%, talvez 80% de chance de sobreviver com um imunterápico maravilhoso, que era específico para linfócitos B!

Devo confessar que, apesar de ter mestrado em Biologia Celular e estar nas vias de fato com meu doutorado em Biologia Tecidual numa das melhores universidades da América Latina, até aquele ponto eu estava muito concentrada em sobreviver – talvez até fugir – do hospital, e não tinha contemplado ainda a possibilidade da morte seguir o meu cangote pela infinitude de horas que me esperavam até o final do ano, muito menos dedicado qualquer energia a pesquisar sobre as possibilidades de diagnóstico que me espreitavam. Eu ainda era leiga o suficiente no assunto para não saber, inclusive, que se o câncer não te matar até o fim do tratamento (ou algum dos efeitos colaterais dos fármacos, o que te envenenar primeiro!), você fica marcada para adoecer de novo por mais CINCO anos. Não que eu achasse que tinha condições de sobreviver à quimioterapia, com minha saúde de cristal. Sem chances. Qualquer pastel me fazia vomitar até a alma. Eu desmaiava sentada, tomando café da manhã. Não tinha o menor cabimento gastar o dinheiro e o tempo dessas pessoas com um tratamento tecnológico que certamente iria parar no esgoto.

Sete anos mais tarde, de volta à sala fria e aos zumbidos competentes do tomógrafo que me fatiava em feixes de radiação numa sequência quase melódica, eu esperava poder não repetir a história. Não dessa vez. Apesar de ter escapado da ameaça de retorno do linfoma de mediastino (raríssimo) e recebido licença para viver como se nada tivesse acontecido, eu encontrei um câncer de mama luminal (o mais comum, dentre os de mama) começando a dar as caras. Duas mastectomias depois e a promessa de que, com a cirurgia, estaria tudo sob controle, a segunda biópsia revelou células malignas do tumor nos linfonodos da axila. E o meu caso, que começou tão simples para o mastologista, ia se desdobrando num problema muito mais caótico do que parecia. 

De volta ao carro, atordoada pelo sol brilhante depois de uma semana inteira de chuva e neblina em plena primavera – cortesia do El Niño de 2026 – aperto o volante, ajustando a rota de volta pra casa. Eu me conduzo pela avenida, com minhas próprias mãos, sólidas e supreendentemente firmes.  

<bip>

Pode voltar a respirar.

Atenção: lmagem de capa criada com o auxílio da inteligência artificial Gemini, e editada digitalmente. Já o texto foi ditado integralmente pelas vozes da cabeça da autora, com base em suas desventuras recentes, de volta ao mundo da oncologia como paciente.

No último mês, a Clorofreela passou a integrar a lista de empresas-filhas da Unicamp.

Com isso, fazemos parte agora da Unicamp Ventures:


O Unicamp Ventures é uma rede de relacionamento dinâmica, composta por empreendedores de empresas-filhas da Unicamp. Com o propósito de unir os empreendedores da Unicamp, o busca impulsionar o ecossistema de inovação e potencializar o desenvolvimento das empresas-filhas.

Acompanhe o nosso blog para saber novidades sobre a parceria!

Oi! Se você chegou aqui buscando orçamento ou disponibilidade: antes de mais nada, muitíssimo obrigada desde já! Me sinto muito honrada pela consideração.

No momento, estou em dedicação exclusiva como bolsista FAPESP e, por isso, não estou assumindo novos trabalhos remunerados.

Minha disponibilidade futura depende da vigência definitiva da bolsa, portanto minha agenda está fechada por tempo indeterminado.

Enquanto isso…

Lista de interesse

No momento não estou recebendo novos pedidos de orçamento.
Entre na lista de interesse para ser avisado(a) quando eu reabrir vagas ↓

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Parcerias institucionais

Editais, projetos com impacto público, prazos flexíveis


Escreva para ✉️ contato@clorofreela.com com o assunto “Parceria institucional – título do projeto”.

Instagram e whatsapp

Peço por gentileza para que os contatos sejam feitos via e-mail.

Eu com frequência não sou notificada das mensagens recebidas por plataformas.

Minha conta de Whatsapp é pessoal.

Perguntas e Respostas

Obrigada pela compreensão e carinho.
Carol Frandsen

Nota: postagem atualizada em Outubro de 2025.

Palestra do Bloco B

Data: 29 de julho de 2025 (terça-feira)

Horário: 16:00 – 17:30

Local: CB13

Formato: Apresentação com exemplos práticos, discussões sobre ferramentas de ilustração digital e uma sessão de perguntas e respostas.

Objetivo: Explorar as diferenças entre a ilustração científica tradicional e digital, destacando as possibilidades da última como ferramenta de comunicação visual da ciência, com foco na divulgação e disseminação científica online.

A palestrante compartilhará sua trajetória na ilustração científica, destacando sua adaptação ao uso de ferramentas digitais, formação e o impacto dessa transição em seus projetos e atuação profissional.

Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia (CAEB)

O CAEB é organizado por estudantes de graduação e pós-graduação em Ciências Biológicas da UNICAMP e ocorre a cada dois anos, sendo destinado aos estudantes, professores e pesquisadores da área.

O XVII CAEB ocorrerá nos dias 28 de julho a 01 de agosto de 2025

Ontem a noite, o espaço cultural Fêmea Fábrica promoveu uma sessão de modelo vivo aberta no centro de Campinas, com mediação da artista e arte-educadora Giselle Freitas. Quem posou foi a Carolina Gasquez, artista do corpo, educadora e pesquisadora da dança. Por coincidência, ela foi a primeira pessoa que desenhei numa sessão ao vivo, em setembro de 2019. Antes disso, eu já tinha praticado com versões online – provavelmente com o QuickPoses . Mas é uma experiência bem diferente, claro, alguém caminhar nua numa sala cheia de gente e ser retratada simultaneamente por todos eles.

Desenho gestual

Sessões de modelo vivo são oferecidas normalmente para artistas/estudantes praticarem Desenho Gestual. O desenho gestual é uma prática de estudo da figura humana em movimento. Existem técnicas bem tradicionais de como fazer esses estudos, mas em sessões abertas como essas que eu participei, cada um é livre pra seguir com seu estilo e mídias favoritas. De 2019 pra cá, já testei alguns materiais clássicos – como pastel seco e carvão – mas sigo preferindo lápis de cor multicoloridos, como esses da Koh-i-noor:

Um vermelho supersoft (Faber Castell escolar) com meus dois lápis de minas coloridas

O lápis mais largo é um Lápis Jumbo Koh-I-Noor “Magic Multicolor” da cor Fire, que eu tenho sei lá, desde 2015, pelo menos. O mais fininho é da mesma marca, mas as cores da mina são do tipo “original”. Queria um Tropical pra fazer urban sketches, mas nunca mais encontrei avulso pra comprar.

Aliás, escrevendo este post, descobri que a Faber tem uma linha de pontas multicoloridas também, chama “Misturinha”.

Como funciona?

As sessões duram cerca de 2h, mas o evento em si costuma se estender um pouco após os desenhos propriamente ditos. Costumamos cumprimentar o(a) modelo(a) antes dele(a) se despir. Normalmente o espaço é organizado com os artistas em círculo ou semi círculo ao redor de uma área central, bem iluminada. Esta área costuma contar com uma cadeira, sofá ou outra superfície para poses horizontais. As luzes ficam baixas ou apagadas, e o foco luminoso fica onde o(a) modelo está.

As sessões costumam ser muito respeitosas e silenciosas. Apenas uma trilha sonora (escolhida pela pessoa que posa, normalmente) e o barulho do timer costumam interromper o fluxo de desenhos.

A pessoa que posa costuma escolher uma posição, e se mantém nela por tempos pré-determinados. A pessoa que está mediando a sessão controla o tempo com um temporizador e avisa aos demais quanto tempo irá durar cada pose.

É comum começar com algumas poses de aquecimento, com 1 ou 2 minutos de duração.

Na sessão de ontem, elas já começaram com duas poses de 5 minutos, e uma de 10 minutos:

primeira pose, de 5 minutos

Eu costumo correr a silhueta da pose com o lápis jumbo, de forma rápida e com traços leves, tentando delinear as proporções e orientação geral. Depois volto com um lápis colorido (de cor única, como o vermelho abaixo) e passo a reforçar os contornos, em traços mais pesados, firmando as decisões anteriores ou adicionando pequenos detalhes. Também marco os volumes maiores dos músculos com hachuras. Pego outra cor para marcar o cabelo (fiquei fazendo testes pra ver se gostava mais dos cabelos marcados de cor única ou com o lápis multicolorido fino – que faz tons de verdes e azuis). Rabisco a superfície de contato que ancora a modelo no espaço (nos dois primeiros, este zigue-zague ao redor dos pés).

segunda pose, de 5 minutos, acima, e terceira de 10 minutos abaixo

Depois, uso um lápis mais escuro pra reforçar as sombras. Nesta sessão, eu foquei em testar fazer as sombras fortes que deixassem mais claro que a Carol estava apoiada em grandes almofadas.

pose mais longa, de 15min

Quanto mais tempo de pose, mais eu tento me comprometer com detalhes anatômicos. E costumo deixar o rosto por último, porque o foco é mais no gestual e na expressão do resto do corpo. Neste aqui, eu inclusive fiquei bem frustrada com o rosto, porque não ficou nada parecida com ela. Note que nos próximos dois, eu fiquei um pouco obcecada com isso.

alguns detalhes do desenho anterior

Eu estava ficando incomodada por não estar conseguindo acertar o nariz nem o corte de cabelo super repicado da Carol.
Nesta pose, eu tentei sombrear com um pouco mais de minúcia algumas partes do corpo, ao invés de só colocar hachuras soltas. E tentei mostrar que a superfície (colchão) se moldava ao peso da modelo sentada. No fim, acabei esquecendo das mãos, que foram adicionadas sem muito cuidado. E como o rosto ficou muito escuro, acabei fincando a ponta de um lápis mais escuro pra tentar só acentuar o perfil do olho. Ficou menos parecido ainda com a Carol..

a diretora de arte disse que ela parece a Harley Quiin aqui
duas últimas poses da sessão: 10 e 15min

Continuei tentando detalhar o rosto. Nesta folha, abandonei o azul cobalto saturado, e peguei um cinza-azulado mais tendendo ao indigo.

foquei 10 min em tentar representar só a cabeça. Sucesso médio.
neste aqui, eu já estava cansada de errar, e quis então focar meu esforço nos volumes ao redor da área focal da base dos seios. Espalhei a pose pela página aberta do caderno e fui aplicando mais cores nos contornos do que dentro do corpo propriamente dito.

Serei perseguida pra sempre por essas hachuras mal feitas que coloquei no seio da frente, que não seguem o caminho da luz. Mas quando a gente vê a figura como um todo, não chama taaanta atenção assim.

Enfim. Lembra que comentei que depois dos desenhos, a sessão se estende um pouco?

É a hora da mini exibição de artes produzidas:

Parte dos artistas conversando sobre a experiência

Sempre nesta hora eu me lembro que preciso levar folhas soltas pras sessões de modelo vivo, e não o sketchbook… e de não fazer os desenhos em frente e verso nas páginas, porque senão não tem como exibir no final.. O que certamente vou esquecer, na próxima.

Assim como nos encontros de Urban Sketching, é super divertido ver o conjunto e reparar nas soluções tão diferentes que as pessoas pensaram pra mesma situação que você.

Galeria do dia

Figuary

Houveram rumores ontem de que a Fêmea Fábrica talvez passe a ter sessões mensais de modelo vivo em 2025. E que a próxima será na segunda semana de fevereiro. Seja como for, em fevereiro, no universo dos artistas cronicamente online, acontece o evento chamado Figuary – trocadilho com February – um mês pra se desafiar desenhando a figura humana. Sempre indico ver o conteúdo do Croquis Cafe para guias de estudo e pose – antigamente, a maior parte do material era gratuito, os mais recentes são pagos, e provavelmente vale muito a pena. Quem sabe tento fazer alguns estudos no próximo mês?

Ah, aqui tem uma coletânea de sessões ao vivo que já participei (repare que a primeira, com folhas de espada-de-são-jorge, são desenhos da mesma modelo desta postagem!)

Programação de evento:

Corpo-padrão da ciência:

Detecção de HPV em câncer de orofaringe:

Divulgação: Soldadinho Defensor

Dia mundial sem tabaco:

Divulgação de texto na Revista Blogs Unicamp

Paleta de cores e acessibilidade visual

Vamos falar de alguns termos que são praticamente o “arroz com feijão” no nosso dia a dia com projetos de ilustração. Leia esse protótipo de glossário de ilustração e descubra vocabulários que você nem sabia que precisava!

  1. Briefing:
    O ponto de partida. É o documento (com sorte) ou conversa (o padrão) que define o conceito, as necessidades e os objetivos do projeto para o qual a ilustradora será contratada. Sem um briefing claro, é impossível criar algo que atenda às expectativas do cliente.
  2. Alterações:
    Ajustes feitos após o feedback do cliente ou da equipe. É natural, faz parte, mas um bom briefing (vide acima) ajuda a minimizar mudanças desnecessárias.
  3. Cessão de uso:
    É o contrato que especifica como e onde a arte pode ser usada. A ilustração pode ser cedida de forma exclusiva ou para uso limitado.
  4. Arte final:
    A versão definitiva da figura. Todas as linhas, formas, cores e efeitos estão alinhados e prontos para entrega ou publicação. Normalmente é uma figura que não pode receber mais alterações (vide acima).
  5. Composição:
    A organização dos elementos visuais na imagem. É um dos grandes responsáveis por fazer uma figura ser clara e equilibrada.
  6. Arte vetorial:
    Imagens criadas a partir de formas geométricas e matemáticas, que podem ser escaladas sem perder qualidade. Ideal para logotipos e infográficos, mas muitas vezes são bem úteis para periódicos científicos, que pedem ampliações específicas do arquivo final.
  7. Arte rasterizada (“ráster”, “pixels” ou “mapa de bits”):
    Imagens baseadas em pixels, como fotos, arquivos JPEG, PNG. Essas imagens têm resolução fixa (ver abaixo) e limite de ampliação – e perdem qualidade conforme você dá zoom.
  8. Estilização:
    São o conjunto de escolhas visuais que dão “personalidade” à arte, como simplificar formas ou exagerar características. Se eu classifico uma ilustração como estilizada, quero dizer que ela não tem a proposta de ser fotorrealista – ou seja, de simular uma fotografia, com luz, sombra e texturas que emulam a realidade.
  9. Resolução:
    Medida de qualidade da imagem, geralmente em DPI (pontos por polegada). Mais resolução = mais nitidez, mas também mais pesado o arquivo (se estamos nos referindo a figuras rasterizadas; ver “Arte Vetorial”).
  10. Lineart:
    Os contornos nítidios da arte. São as linhas que definem a estrutura da ilustração, se removermos a cor e outros acabamentos.

E aí, quais palavras você sempre escuta e adoraria saber a definição? Ou ainda, quer saber como chama algo específico? Deixa um comentário que eu complemento!

atualizado em: junho/2026

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